O Medo inscrito no inconsciente.

Ter medo em alguns momentos pode ser bom, nos protege de nós mesmos e de situações de perigo real. Quando nos aproximamos de uma sacada de um prédio ou nos aproximamos de um despenhadeiro, sentimos medo por se tratar de uma situação de perigo real. Sabemos que um Tigre, por exemplo, é um animal feroz, portanto não vamos nos aproximar de um como nos aproximamos de um gatinho doméstico.

Contudo existem medos que não são medos reais, ou seja, algumas pessoas tem medo de bichos que em sua natureza não oferecem risco para nós, como por exemplo as baratas, sapos, lagartichas, lesmas.

E existem ainda os medos do que não é tangível ou do invisível como medo do escuro, ou de vultos, ou mesmo de fantasmas.

Os medos de situações de real perigo, ou de bichos ou do não visível são largamente discutidos tanto na psicologia quanto em outras áreas da ciência. Contudo existem medos que são poucos discutidos ou os chamados medos do inconsciente.

Algumas pessoas tem medo de amar, outras tem medo de fracassar, de ter dinheiro ou de não ter, ou de perder o dinheiro que conquistou ao longo da vida. E onde estão registrados estes medos? Porque uma pessoa tem medo de amar, se amar em tese é algo bom? Porque alguém tem medo de fracassar se teoricamente para se obter sucesso em qualquer esporte ou em um empreendimento passamos por vários momentos de fracasso? Porque um empresário tem medo de perder o que conquistou?

Estes medos inscritos no inconsciente muitas vezes nos acompanham durante muitos anos de nossa vida, um amigo os denomina de vícios da mente. É como se houvesse um vício ou uma marca, semelhante a de um disco arranhado, que toda vez que a agulha passa por ele a música para. Em nós humanos temos também estas marcas, ou estes arranhados, que toda vez que a vida ou um estimulo nos coloca naquele ponto paramos e ficamos repetindo algo, ou seja, não caminhamos ou ainda fazemos o que estamos acostumados a fazer. O motivo é variado, depende de cada um. Cada pessoa tem a sua história, cada pessoa viveu de uma forma, mas todos nós temos as nossas questões, os nossos medos.

Cabe a cada um buscar se autoconhecer para descobrir o que provoca determinadas reações e como fazer para reproduzir uma reação diferente da que se está acostumado.

Julio é um paciente que tem medo de amar, ele quando criança foi rejeitado pela mãe, foi surrado pelo pai algumas vezes, na sua infância tinha poucos amigos, o que o acompanha até os dias de hoje. Em sua juventude tinha amores platônicos por professoras e colegas de sala, era muito sonhador, mas seu pai não apoiava suas idéias, dizendo que não daria certo, antes mesmo que ele iniciasse tal empreitada.

Júlio cresceu vivendo uma vida solitária, pouco antes de entrar na idade adulta ele saiu de casa e foi morar sozinho. Teve alguns relacionamentos amorosos que normalmente terminavam com sua companheira dizendo que não queria mais. Logo a tristeza se instalva, mas Julio era obstinado a ser vitorioso, depois de um tempo se envolvia com uma nova pessoa, mas o final era sempre parecido, ou seja, ele era largado e novamente a tristeza surgia.

Quando Julio me procurou ficou claro para nós que ele produzia de alguma forma os momentos de tristeza em sua vida. Algo em seu comportamento conduzia os relacionamentos para o término fatídico. Ao analisar a sua história Julio começou a perceber que de tempos em tempos algo se repetia em sua vida, começou a perceber que os términos não eram frutos somente do acaso ou de algo cármico, espiritual; havia um ingrediente comportamental que era seu.

Num certo dia exemplifiquei para ele de forma análoga: quando em uma árvore cresce uma erva daninha, esta erva cresce porque se alimenta tal qual a árvore; em nós acontece o mesmo, disse a ele. Temos nossas qualidades e dificuldades, e as dificuldades ou nossos aspectos negativos são alimentados por nós e crescem tal qual a erva daninha em uma árvore. O negativo também evolui disse a ele. Para a erva daninha pare de crescer temos que parar de dar comida para ela, ou seja, para um comportamento deixar de existir temos que parar de alimentá-lo, daí ele entra em extinção.

Neste ponto do nosso trabalho Júlio está fazendo alguns exercícios mentais com o objetivo de fixar em sua mente uma nova forma de ser. Tais exercícios estão ajudando ele a dar conta de permanecer mais nos relacionamentos e ele hoje tem mais consciência de si mesmo, sabe mais sobre si, sobre suas habilidades e dificuldades. Em alguns momentos ele tem alguma recaída, mas está superando os vícios mentais e conseguindo ser mais feliz por mais tempo.

A questão principal em nós seres humanos é que todos têm questões a serem resolvidas, por mais desenvolvido que sejamos em alguma área da vida, tal qual um grande atleta, um mega empresário, um cientista, enfim todos nós independente do que estejamos fazendo temos nossas sombras, ou nossas ervas daninhas inscritas em nós, em nosso inconsciente.

Para que sejamos diferentes, ou façamos diferentes, precisamos primeiro saber o que exatamente estamos fazendo, conhecer mais como nosso inconsciente trabalha e começar a ré programá-lo para que nossos comportamentos sejam realmente diferentes.

Demora e muito para conseguir eliminar ou transmutar um vício da mente, mas é extremamente gratificante quando descobrimos a magia do renascer, ou quando descobrimos que podemos fazer de forma diferente.

A laranja bahia não tem opção de se tornar laranja serra dágua, mas nós temos esta capacidade implícita em nosso Eu, podemos querer ser diferente e temos condição de ser, basta querer, e o querer é algo exclusivo de nós humanos. Portanto, use seu querer e busque ferramentas para auxiliá-lo em seu processo de autoconhecimento.

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